Divagação 08: Crônica voluntária
Primeiramente gostaria de esclarecer o contexto em que esse texto está inserido. Durante uma aula de Sintaxe do Português, a professora pediu para que os alunos que quisessem coloborar com a pesquisa que ela estava fazendo escrevessem um texto com base num outro texto. Esse texto primeiro era uma reportagem da Época, falando sobre a Presidente da Libéria e sobre a posição dela sobre o relacionamento homossexual no país. O texto também trazia outras informações sobre como a homossexualidade é tratada na África como um todo. Tinha uma foto de manifestantes ugandenses com cartazes homofóbicos e também um mapa mostrando os países africanos onde a homossexualidade é considerada crime. Bom, isso tudo pra dizer que o texto que os alunos deveriam escrever deveria se basear nessa pequena coletânea, tipo uma prova de vestibular mesmo. Eu fiz uma crônica. E aqui está ela.
Acordo quase todos os dias às duas da manhã com farelos de reboco caindo sobre minha cabeça. Por muitas vezes já tentei mudar minha cama de posição para evitar esse desconforto, porém, como o quarto é muito pequeno, não há muitas opções de mobilidade. Além disso, minha vizinha do andar de cima parece adivinhar onde estou a cada vez que mudo. Devemos estar conectados de algum modo, pois sempre que mudo minha cama, ela muda o lugar de fazer sexo.
Eu não sou de observar muito a rotina dos meus vizinhos, no entanto, essa coisa de farelo na cabeça todo dia é de intrigar qualquer cidadão. Comecei a reparar que todos os dias a loira do andar de cima traz parceiros, e parceiras, diferentes para dormir na casa dela, exceto no domingo. Talvez a religião dela não permita.
Nesse contexto de gemidos, batidas no teto, farelo de reboco na cabeça é que me levantei hoje de madrugada a fim de distrair a cabeça. Olhei pela janela, alguns rapazes fumavam serenos seus cigarros de maconha. Pouco interessante. Quis ligar o som, mas pensei que fosse incomodar os vizinhos, então não o fiz. Liguei a televisão no noticiário da madrugada.
Havia nascido o filho de um jogador de futebol que naquele momento já era mais rico que eu. Um endocrinologista e também psicanalista estava sendo processado porque havia ofendido uma atendente de cinema. Era negra e ele havia sugerido que ela voltasse para a África, para cuidar de orangotangos, que vivem na Ásia por sinal. A presidente reeleita na Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, que ganhou o prêmio Nobel da paz juntamente com outras duas mulheres em 2011, numa entrevista defendia a prisão de "praticantes de atos homossexuais", lei esta que vigora na Libéria.
Parei de prestar atenção nas outras notícias depois disso. Já havia lido algo a respeito dessa senhora. Inclusive, achava louvável sua luta por uma emancipação feminina por aquelas bandas do planeta, carente em tantos aspectos. Nada mais justo que as mulheres pudessem adquirir direitos até então masculinos. E a aquisição de direitos iguais pelas mulheres, enquanto seres humanos que são, é um passo grande para uma melhora significativa na qualidade de vida da população africana.
Entretanto, o posicionamento da única presidente do sexo feminino no continente africano, considerada diferente dos demais, sensível a grupos discriminados e aos direitos humanos, Ellen Johnson, (sim, a mesma que defende a punição a pessoas homossexuais) me deixou um tanto descrente sobre "o poder da educação" tão comentado por aí. Ela, juntamente com o psicanalista citado anteriormente e tantas outras pessoas cultas e instruídas as quais que não conheço mas sei que existem, pelo visto não se dão conta do conceito da palavra respeito. Ao menos não em sua totalidade. Minha vizinha também não se dá conta disso.
A realidade africana atualmente não favorece a minoria homossexual. Tempos atrás circulava uma foto nas redes sociais de manifestantes com cartazes, felizes e entusiasmados. Alguma coisa semelhante a uma parada gay, só que ao contrário. Tal manifestação se relacionava aos direitos homossexuais, porém, os manifestantes ugandenses traziam dizeres repressivos a esses direitos nos cartazes. Lutando por uma espécie de sexualidade pura, algo parecido com o que fez um certo sujeito na primeira metade do século XX. Engraçado.
Países como a Libéria, a Uganda, o Egito e a Nigéria estão entre os 38 dos 54 países africanos que possuem leis em vigor com punições que variam entre meses de reclusão carcerária, estupros corretivos e até pena de morte aos não-heterossexuais. O mais intrigante nisso tudo é que grande parte desses países possui um número alto de pessoas ligadas a religiões, que predominantemente são cristãs e mulçumanas. Religiões essas que pregam, acima de qualquer outra coisa, o amor e o respeito ao próximo e à vida. Isso não vem sendo muito difundido pelas religiões ou pelo Estado, ou por qualquer outro tipo de instituição ideológica, visto que nos últimos seis meses ocorreram seis ataques a gays, deixando oito feridos na capital da Libéria.
É fácil para mim, que vivo no país do Carnaval, achar absurdo o fato de pessoas serem estupradas e isso ser considerado legal num país que tem uma cultura muito diferente da que estou acostumado. Assim como é fácil para qualquer ser humano, em qualquer parte do mundo, pensar a mesma coisa. Absurdo. Completo absurdo.
Eu não me importo com os parceiros e parceiras da minha vizinha, assim como ela provavelmente não se sente incomodada quando eu como a sobremesa antes do jantar. São apenas preferências, tanto minha, quanto dela. A vida sexual de pessoa alguma no mundo deveria ser posta como aspecto de julgamento e condenação. Nem quando alguém te acorda quase todas as noites porque está fazendo sexo com alguém do mesmo gênero. Porque o problema não é, e nunca será, o quanto essa pessoa se relaciona com outra(s).
O problema todo, desde o começo desse texto, é o apartamento antigo e desgastado em que eu vivo.
